Cristianismo Puro e Simples: III

Chegamos ao último momento desta série em que refletimos sobre o que significa ser cristão no seu sentido mais básico. O que é indispensável para que alguém se identifique como discípulo de Jesus? Até aqui vimos que ser discípulo de Jesus não é essencialmente frequentar a igreja com regularidade; nem conhecer dogmas teológicos ou mesmo obedecer a determinadas regras ou a uma determinada ética institucional.

Vimos que ser cristão significa essencialmente crer plenamente que Jesus é quem Ele disse ser: o Cristo, o Filho do Deus vivo. Vimos ainda que ser discípulo de Jesus significa render-se completamente ao que Ele fez: entregar-se na cruz em nosso lugar. Isso já deixa claro que o cristianismo NÃO se trata de regras e leis; nem se trata do que nós podemos fazer por Deus ou do nosso amor por Ele. Isso é muito importante porque muitos dos que se dizem cristãos ainda não entenderam isso: até creem ser Jesus o próprio Deus, mas continuam a tentar se relacionar com Ele por meio de sua própria justiça.

Todavia, isso não é cristianismo porque o Cristianismo se trata do que Jesus Cristo fez em nosso lugar e do seu amor por nós. É render-se ao que aconteceu na cruz, entendendo que a morte de Cristo foi em nosso lugar e foi suficiente para Deus nos perdoar completamente, quitar qualquer dívida, nos aceitar e nos dar a vida eterna.

No entanto, não basta render-se num dia e em todos os seguintes esquecer-se da mensagem da cruz como se fosse apenas a porta de entrada para o incrédulo e que você ― agora que já é um discípulo ― precisa de algo mais profundo. De modo nenhum! É preciso render-se à cruz de Cristo todos os dias. Embora haja uma variedade de vocações e dons, a nossa vida deve ser norteada apenas por uma verdade transcendente: que Cristo morreu pelos nossos pecados. Essa é o alimento essencial do verdadeiro cristão. Por isso, ser cristão na sua essência significa ainda confiar constantemente no amor de Deus por nós. É disso que Paulo fala:

“Portanto, assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele, enraizados e edificados nele, firmados na fé, como foram ensinados, transbordando de gratidão.” Colossenses 2:6-7

Paulo é radicalmente centrado na Cruz de Cristo. Ele fala sobre alegria, ética, casamento, criação de filhos, trabalho ou qualquer outro assunto sempre, em última análise, vinculando-os à cruz. Neste texto, ele diz que da mesma maneira que recebemos a Cristo ― da mesma maneira que um dia entendemos e nos rendemos a mensagem da cruz, da graça, do perdão e do amor de Deus ― assim devemos continuar vivendo Nele, dia a dia criando raízes e fundamentos na verdade de que Deus expressou todo seu amor por nós na Cruz de Cristo.

Esse é o grande desafio de viver o cristianismo puro e simples: abrir mão da sua tendência de tentar conquistar o amor de Deus por seu próprio desempenho e se render ao que Jesus fez naquela cruz. Porque mesmo os que um dia se renderam ao amor de Deus na cruz têm dificuldades de seguir confiando e se rendendo diariamente a esse amor, especialmente por causa de dois inimigos contra os quais Paulo adverte:

  1. Legalismo

“Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que, como se ainda pertencessem a ele, vocês se submetem a regras: “Não manuseie!”, “Não prove!”, “Não toque!”? Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne.” Colossenses 2:8 ; 2:20-23

Viver confiando somente na cruz é difícil porque afronta aqueles que se acham relativamente bons. Se olharmos para os evangelhos, vemos que publicanos, prostitutas e demais considerados pecadores não tinham grandes dificuldades em se render a Cristo. Os que tinham dificuldade eram os religiosos porque se achavam com uma moral acima da média; se achavam suficientemente bons para que Deus os aceitasse; e, por isso, não precisavam que ninguém se sacrificasse por eles.

Essa religiosidade sem entendimento é o Legalismo a que Paulo se refere. O legalismo é a nossa tendência a crer que precisamos fazer alguma coisa para sermos aceitos e amados por Deus. O legalismo é a nossa sede de autojustificação que usa das regras, leis, manuais e protocolos para tentar nos convencer que sem obediência a estas coisas Deus não vai se alegrar conosco.

No entanto, a verdade é que Deus decidiu nos amar e nos perdoar totalmente e exclusivamente pelo que Jesus Cristo fez na cruz. Isso significa que não há nada que você possa fazer para Deus te amar menos, nem nada que possa fazer para Deus te amar mais. Ele perdoa completamente na cruz e você não precisa ficar se esforçando para ser amado por Ele. O que você precisa é descansar neste amor já provado na cruz.

  1. Licenciosidade

“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, procurem as coisas que são do alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Mantenham o pensamento nas coisas do alto, e não nas coisas terrenas. Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus” Colossenses 3:1-3

Paulo adverte contra o outro extremo ― a licenciosidade.

O licencioso é aquele que pergunta: A cruz me perdoa de todos os erros do passado? Sim. E também me perdoa de todos os erros que ainda vou cometer no futuro? Sim. Então não importa se vou fazer o bem ou o mal? Não, não importa! ― Então vamos esbanjar.

Ele pensa que mudanças na sua vida e caráter não são necessárias. O licencioso é enganado, pensando que não importa como ele trabalha, como ele trata a esposa, como ele se porta com os filhos, como ele trata o empregado, porque ele é filho do Rei.

O resultado da licenciosidade é esterilidade e insubmissão. Ele se diz cristão, mas não dá frutos de bondade, de misericórdia ou de justiça.

A licenciosidade é um inimigo da vida em Cristo porque distorce a compreensão do evangelho. O licencioso não entendeu a cruz. Ele não entendeu que a graça é de graça para nós, mas para Deus custou um alto preço. Ele não entendeu que quando Cristo morreu na cruz, morreu para libertá-lo do jugo do pecado para uma nova vida em Deus.

Portanto, viver o cristianismo puro e simples é confiar totalmente no que Cristo fez na cruz, sabendo que o amor de Deus é constrangedor.

Assim, o convite é: siga Jesus até a cruz. Tenha coragem de olhar para a cruz e de se voltar diariamente para compreender mais uma vez o que aconteceu ali, de forma que você experimente as mudanças em sua vida à medida que contempla o amor constrangedor de Deus por você. Assim ― por causa do Seu amor ―, você pode livremente obedecer e andar segundo os Seus princípios que são para o seu bem.

 

Baseado na série de pregações: Cristianismo Puro e Simples, do Rev. Jonatas Cunha (@JonatasDaNanda)

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