Doutrinas da Graça

Recentemente li, em um post no Facebook, a seguinte frase – atribuída, no post, a Josemar Bessa –, que fala sobre a graça:

“Sem as doutrinas da graça, tudo no cristianismo é feito por medo ou orgulho”

Essa citação me pôs a pensar a respeito do significado profundo que essas doutrinas imprimem nos nossos corações, enquanto cristãos – e sempre me vinha à mente um texto bíblico pelo qual eu tenho um carinho muito especial, de Efésios 2. Resolvi então escrever um pouco do que eu concluí depois de alguma reflexão sobre essa sábia fala, abordando os motivos pelos quais essa doutrina bíblica nos permite afirmar que a salvação tem como única fonte a vontade soberana de Deus e seu amor incondicional e as razões pelas quais ela nos leva a agir por amor, não por medo. Para isso, gostaria de limitar o entendimento do termo “doutrinas da graça” ao conjunto doutrinário que compõe a ideia da salvação pela fé, através da obra graciosa de Jesus Cristo.

Devemos observar, para começar o estudo dessa doutrina, dois pontos principais que o próprio Deus nos diz na Sua Palavra a respeito da graça e do seu amor incondicional: Ele nos amou primeiro e não há o que façamos para merecer o favor da salvação. Posteriormente veremos as duas inferências lógicas desses pontos, que são a impossibilidade de cairmos dessa graça e a nossa impulsão amorosa, não temerosa, em obedecer àquele que nos deu vida.

Deus mostra em diversos pontos, como Romanos 5:8 e 1 João 4:19, que Ele nos amou primeiro, quando éramos ainda seus inimigos, pecadores – fato este que revela, por si só, a incondicionalidade do amor divino, uma vez que Ele já nos amou antes mesmo que tivéssemos a chance de fazer qualquer coisa para merecer este amor, se assim fosse possível –, portanto Ele já nos amava, não só enquanto não fazíamos nada que justificasse esse amor, mas também enquanto pecávamos indiferentemente contra Ele, indo dolosamente contra Sua santidade.

O segundo fator apontado nos evidencia que não somos capazes de produzir ação boa e santa o suficiente que nos garanta a salvação. Esse ponto é claro e permeia toda a Palavra, desde a aliança unilateral de Deus com Abrão – à época – em Gênesis 15, dos rituais levíticos sacrificiais simbólicos que apontavam para o Cordeiro imaculado que viria, até o sacrifício perfeito do Cristo, Filho do Deus vivo. Vemos uma certeza tão sólida deste tema e deste aspecto específico na mente dos apóstolos, os quais viveram intimamente com Jesus, que eles fazem afirmações categóricas e inquestionáveis a respeito dessa doutrina em textos como:

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.” Efésios 2:8-9

 

“Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus.” Romanos 3:23-24

“Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.” João 6:44

“Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar.” 1 Pedro 5:10

A partir dessas duas claras e consistentes porções das doutrinas da graça, podemos seguramente chegar às duas conclusões indicadas há pouco, na introdução. Primeiro, que não há como cairmos dessa maravilhosa graça que nos é cedida. Isto se deve à simples reflexão que, se não há o que façamos para merecer o amor de Deus, não há que façamos para desmerecer esse amor. O Pai nos amava quando o ofendíamos a todo momento, sem considerar Sua santidade e perfeição, logo não seria lógico pensar que qualquer coisa que façamos possa nos destituir desse amor – a palavra “incondicional”, quando bem observada, nos descreve com transparência o real sentido desse amor: não requer de nós condição alguma, existe apesar de nós e das nossas falhas.

Temos ainda a segunda conclusão dessas doutrinas, que é a nossa impulsão amorosa a praticar atos de obediência a Deus. A bíblia nos torna claro que, ao recebermos do Pai a salvação e conforme nos santificarmos junto a Ele, a nossa vontade se alinhará a dEle e seremos impelidos a obedecê-lo em tudo. Essa obediência, entretanto, não será consequência do medo de cairmos da graça ou de irmos pro inferno – já que não há como sermos destituídos da salvação uma vez por ela contemplados –, muito menos de um orgulho vão por sermos bondosos o suficiente para garantirmos nossa própria salvação – visto que não vem de nós a salvação e não contribuem em nada para ela as nossas boas obras. Assim sendo, é indiscutível que agiremos – evidenciando o Espírito que em nós habita – unicamente em amor e gratidão ao Pai que nos concede salvação no Filho, por compreender que não há nada melhor a fazer no mundo.

Concluo essa breve reflexão com uma frase de um dos sermões pregados por Charles H. Spurgeon, quando falava a respeito da graça de Deus:

“A substância e essência do verdadeiro Evangelho é a doutrina da graça de Deus; de fato, se você tirar a graça de Deus do Evangelho você terá extraído dele seu próprio sangue vital e não há mais nada que valha a pena pregar nem acreditar, ou que valha a pena lutar. A graça é a alma do Evangelho, sem ela, o Evangelho está morto. A graça é a música do Evangelho, sem ela o Evangelho é silenciado quanto a todo o consolo. […] Os homens devem ser perdoados pela graça de Deus, renovados pela graça de Deus, transformados pela graça de Deus, santificados pela graça de Deus e preservados pela graça de Deus! E quando isso acontecer, a idade de ouro alvorecerá!”

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